Publicado em 1968 como parte de sua trilogia apologética, A Morte da Razão (The God Who Is There) é uma obra seminal de Francis Schaeffer. O autor, por sua vez, é um teólogo e filósofo cristão que diagnosticou a crise espiritual e intelectual da modernidade. Neste livro, Schaeffer traça a trajetória do pensamento ocidental desde o Iluminismo até o existencialismo. Nesse contexto, ele argumenta que a secularização e a dicotomia entre razão e fé levaram à “morte do homem” como ser significativo. Assim, o conceito central da sua análise é o que ele chama de “Linha do Desespero”, uma ruptura que fragmenta a realidade e define o colapso do significado. Diante do exposto, com uma abordagem que abrange filosofia, ciência, moralidade, arte e teologia, o autor propõe a cosmovisão bíblica como a única resposta coerente ao desespero contemporâneo.
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ToggleA Morte da Razão: Kant, Rousseau e o Advento do Determinismo
Sendo assim, Schaeffer inicia com Kant e Rousseau, apontando a secularização completa como o marco que autonomizou a natureza e deu origem ao determinismo. Nesse cenário, o homem é reduzido a uma máquina, e a liberdade, exaltada como absoluta, torna-se irracional. Como consequência, rejeita-se os princípios da filosofia grega ocidental: o racionalismo, a crença na racionalidade das criações e a busca por um conhecimento unificado. Também, a mente humana, agora “infinita” e sem restrições, coloca o indivíduo no centro do universo, mas a um custo: a perda de um fundamento objetivo. Temos, portanto, um prenúncio da “Linha do Desespero”.

Ademais, na ciência moderna, Schaeffer observa uma transição dos primórdios, quando se acreditava na uniformidade de princípios para os fenômenos naturais, para um “sistema fechado“. Esse sistema é uma ideia na qual a ciência passa a explicar o universo como uma grande máquina que funciona sozinha, sem precisar de Deus. Diante disso, a natureza, física, ciências sociais e psicologia passam a ser regidas pelo determinismo, eliminando a transcendência e reduzindo a realidade a um mecanismo sem propósito. Mais um passo crucial para “Linha do Desespero”.
A Moralidade Moderna e o Determinismo Químico
Ainda, há a moralidade que, também, sofre as consequências dessa visão. Nesse contexto, Schaeffer destaca o Marquês de Sade como exemplo do determinismo químico que permeou o século XX, especialmente na esfera pornográfica. Seguindo a linha de raciocínio de Sade, a natureza autônoma determina o que é certo e justo. Nesse mundo, portanto, a dominação do mais forte sobre o mais fraco é justificável, pois a força é natural para alguns, dando o poder/dever de dominar os que não a possuem. Assim, a moral é plenamente irrelevante. Além disso, figuras como Francis Crick e Freud reforçam essa redução do homem a uma máquina, transformando a liberdade em uma “não-liberdade”.
Hegel, no que lhe concerne, introduz o relativismo com sua dialética de tese, antítese e síntese, substituindo a verdade absoluta por resumos subjetivos. Kierkegaard, porém, marca a ruptura definitiva ao abandonar a esperança de um conhecimento unificado, dividindo a realidade em dois “andares” — o irracional (otimismo) e o racional (pessimismo) e —, sem conexão entre eles. Em resumo, o homem como homem racional está morto, resta-lhe reconhecer essa ilusão e agir mecanicamente, irracionalmente. Essa nova tendência, espalha-se da Alemanha para o exterior. O que afeta intelectuais e a classe operária. Porém a classe média, em grande parte, ainda se apega a noções tradicionais de verdade, embora sem compreender suas raízes.
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A Morte da Razão: Existencialismo Secular e Religioso
Assim, o existencialismo secular, impulsionado por Kierkegaard, floresce em figuras como Sartre e Camus (França). Esses veem o universo como absurdo e o homem como um ser que se autentica por atos de vontade desprovidos de significado racional.
Ademais, no campo religioso, Karl Barth propõe um existencialismo que separa a verdade religiosa da histórica, nas Escrituras. Enquanto isso, Tomás de Aquino, criticado por Schaeffer, propõe uma autonomia para a teologia natural. Ainda mais, a neo-ortodoxia, reduz o homem a menos que uma criatura caída, e a fé torna-se um salto irracional. Ou seja, o homem não pode fazer nada para buscar a Deus na escala racional.
Misticismo e a Morte de Deus
Além do que foi exposto, Schaeffer critica essa dicotomia que mata tanto o “andar de cima” (irracional) quanto o “andar de baixo” (racional), transformando a fé em um desejo subjetivo, livre de desafios objetivos. Nessa linha de pensamento, o misticismo religioso e a Nova Teologia proclamam que “Deus está morto”, pois O torna impessoal e O remove do mundo. Desse modo, o autor ressalta que na teologia moderna, como em The Secular Meaning of the Gospel, Jesus é reduzido a um símbolo humano sem conteúdo histórico, separado das Escrituras. Schaeffer alerta que o termo “Jesus” tornou-se um estandarte vazio, usado para motivar sem referência à verdade objetiva, criando “falsos Cristos” que redefinem Sua identidade.
Ainda, Schaeffer argumenta que colocar o cristianismo no “andar superior” gera problemas graves: a moral não se conecta à vida cotidiana, faltando bases para o direito. A noção de Queda, mal interpretada por Aquino, ignora o impacto cósmico do pecado; e o evangelismo é sufocado pela ” Linha do Desespero”. Em contraste, a visão reformada afirma que Deus, Real e Pessoal, comunica-Se verdadeiramente, usando a racionalidade humana sem sentimentalismo (Deuteronômio 5:23-24).
A Bíblia como Fundamento
Em resumo, para Schaeffer (e para todo cristão verdadeiro), a Bíblia é autossuficiente, unindo intelecto e fé. O mundo é real porque Deus o criou, e o homem, feito à Sua imagem, carrega significado apesar da Queda. Diferente do humanismo, que começa no homem, o cristianismo começa em Deus, que é Infinito, Pessoal e Real, capacitando o homem a alterar o espaço à sua volta, superando a “Linha do Desespero”. Assim, o autor conclui que os cristãos devem preservar as verdades imutáveis de Deus em um mundo cheio de mudanças, entendendo os pensamentos contemporâneos para comunicar o verdadeiro Evangelho.

Em síntese, A Morte da Razão é uma crítica erudita à modernidade. Schaeffer conecta filosofia, ciência e cultura com maestria, rejeitando a modernidade que “matou a razão” como uma traição à fé. Então, sua análise da “Linha do Desespero” e sua defesa da cosmovisão bíblica são atemporais e desafiadoras. Com este livro, Schaeffer não apenas diagnostica a “morte da razão” no Ocidente, mas oferece um apelo à redescoberta do Deus que está presente.
Portanto, é uma leitura essencial para cristãos interessados em apologética e para quem deseja entender as raízes intelectuais do desespero moderno — um convite à reflexão em meio ao caos.
“O Deus da fé cristã, o Deus da Bíblia, é PESSOAL e INFINITO”
Francis Schaeffer