Emanuel: Deus Conosco – Sermão de Natal

Hoje, em razão do Natal, trago uma síntese humilde do sermão intitulado “Deus Conosco” do nosso irmão C.H. Spurgeon. Contudo, como sempre, recomendo fortemente a leitura na íntegra das cinco pregações realizadas pelo “Príncipe dos Pregadores”. Digo isso porque são sermões amparados na Palavra de Deus que trarão ricos ensinamentos acerca do nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, nessa data festiva, na qual, talvez, o leitor se sinta confuso quanto às festas e superstições, é de grande auxílio para a sua orientação.

Além disso, vale ressaltar que o Sr. Spurgeon inicia o seu discurso com muita franqueza acerca das comemorações natalinas, declarando a observância religiosa do dia 25/12 como uma das “coisas mais absurdas debaixo do céu”. O pastor nos lembra que Cristo não nasceu nessa data e, assim, não há motivo para tê-la como sagrada, sendo de origem puramente papal. É um direito católico (e não protestante) observá-la.

No entanto, o pregador não desconsidera o dia como um meio válido de alegria para o trabalhador cansado, sendo bem utilizado no próprio repouso e em reuniões familiares. Ainda, ele mesmo tem por objetivo, como pastor, usar dessa ocasião para meditar na Promessa Encarnada, já que muitos são desorientados pelas superstições desse evento.

Diante disso, honrando a linha de pensamento do pastor, desejo compartilhar preciosos ensinamentos propagados por C.H. Spurgeon há mais de 100 anos!

Deus Conosco: a Origem Eterna e a Missão do Filho

Em seu primeiro sermão, baseado em Miquéias 5:2, o pregador afirma que a cristologia não começa na manjedoura, mas na eternidade. O texto bíblico apresenta-nos a eternidade do Verbo e aponta para os planos eternos da soberana Trindade na missão do Filho Encarnado. Dentro desse contexto, o irmão Spurgeon corrige alguns desvios teológicos para o prazer completo do crente em entender o papel ativo da Trindade em toda a Obra da Salvação.

E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade (Miquéias 5:2)

A Unidade da Trindade: “De ti me sairá…”

Um dos erros teológicos mais sutis e perniciosos que o pregador combate logo no início deste sermão é a tendência humana de fragmentar a honra devida às Pessoas da Trindade. Há uma propensão dos homens de atribuir a honra da salvação quase exclusivamente a Cristo, esquecendo-se o envio do Pai e a obra do Espírito Santo. Veja que na passagem bíblica o Deus Pai diz: “[…] de ti ME sairá o que governará…”, portanto a obra da salvação é um ato eterno do Único Deus, embora não neguemos que há a economia santíssima na história da Salvação.

Posto isso, o pregador sintetiza o papel econômico da divina Trindade:

  • O Pai: É aquele que envia, que autoriza e que prepara a missão.
  • O Espírito Santo: É o agente da concepção, aquele que gerou a humanidade de Cristo no ventre da virgem.
  • O Filho: É o executor voluntário, aquele que se submete à vontade do Pai.

Assim, é uma alegria perfeita para o cristão saber que a sua salvação não foi um ato de uma das partes, mas de toda a Trindade, ou seja, do Deus Eterno. E por isso, devemos ser eternamente gratos!

A Separação do Pai e do Filho

Ainda, para evidenciar a perfeita união e amor da Trindade, o pastor utiliza uma retórica impossível, mas suficientemente impactante para transmitir seu pensamento. Tendo em mente toda reverência ao Senhor dos Céus e todo amor aos irmãos ouvintes, o pregador afirma que, se houve um dia verdadeiramente triste no céu, não foi a queda de Satanás e das suas hostes, mas o momento em que o Filho deixou o seio do Pai.

O pregador Spurgeon narra o Salvador colocando de lado a Sua coroa, para ter com os mortais. Ele descreve o Filho despindo-se das suas “vestes de glória” e das suas “túnicas de luz” para vestir a roupa da humanidade mortal. E, por fim, observa, com riqueza de detalhes, os anjos O seguindo até às portas dos céus, dizendo: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças… e sairá o Rei da Glória”. O Filho sai, sai voluntariamente, em acordo com a Santíssima Trindade, para tomar os pecados do Seu povo sobre Si e ser pendurado no madeiro como culpado.

Em perfeita harmonia com a analogia do Sr. Spurgeon, a Palavra de Deus vai nos contar que Cristo “despiu-se de sua glória” (Fp. 2:7) e esse ato de kenosis (esvaziamento) não é a diminuição da sua divindade, mas a suprema manifestação do amor divino, aprovada e ordenada pelo Pai:

“Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão” (Is.53:10)

Deus Conosco: “cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”

Ainda mais, dado o texto de Miqueias, o pregador questiona: “Jesus Cristo já veio antes?”. E a resposta é “sim”. Pois o menino de Belém não é um recém-chegado ao palco da história, mas já fez muitas maravilhas desde muito antes. Ele é o Verbo, cujas ações precedem a fundação do mundo.

Desse modo, Sr. Spurgeon cataloga estas “saídas” em duas categorias principais, demonstrando uma teologia robusta da aliança:

  • Saída da Eternidade: Cristo “saiu” como a cabeça representativa dos eleitos no Pacto da Eleição (Ef.1:4), antes que esse fosse gerado no mundo.

Faça uma pausa, alma, e assombre-se! Você teve saídas na pessoa de Jesus desde a eternidade. Não somente quando nasceu nesse mundo que Cristo lhe amou, porem, Seus deleites estavam com os filhos dos homens desde antes que houvesse filhos dos homens. Frequentemente pensava neles – de eternidade a eternidade Ele tinha posto Seu afeto neles. Como então, crente, Ele esteve envolvido em sua salvação desde muito tempo atrás, e não vai alcançar-la? Desde a eternidade Ele saiu para salvar-me, e vai me perder agora? Como? Tem-me em Sua mão, como Sua jóia preciosa, e deixará que resvale em meio de Seus preciosos dedos? Elegeu-me antes que as montanhas fossem colocadas, ou que os canais das profundezas fossem esculpidos, e agora me perderá? Impossível! (Spurgeon)

  • Saída dos Carvalhais de Manre: os três “homens” que visitaram Abraão como o Senhor Jesus (Gn.18:1-3). Ele nota que Abraão se dirigiu a Ele como “Meu Senhor” e intercedeu diante d’Ele por Sodoma. Cristo, em forma humana temporária, manteve “doce comunhão” com o patriarca.
  • No Vau de Jaboque: O “homem” que lutou com Jacó não era um anjo criado, mas o “Anjo do Pacto”, o próprio Deus-Filho. Jacó declarou ter visto “Deus face a face” (Gn.32:24-28).
  • Diante de Jericó: O “Príncipe do exército do Senhor” que apareceu a Josué e aceitou adoração (algo que um anjo criado recusaria) é identificado como Cristo (Gênesis 5:15).
  • Na Fornalha Ardente: O “quarto homem”, semelhante ao “Filho de Deus”, que passeava no fogo com Sadraque, Mesaque e Abednego, é outra manifestação pré-encarnada do Salvador (Daniel 3:24-25).

“Oh, que Tua graça subjugue meu coração; Quer ser levado triunfante também; Um cativo voluntário de meu Senhor, Para cantar as honras de Tua palavra!”

A Pequena Cidade de Belém Efrata

Falando sobre a cidade da qual o Senhor proveio, o pregador argumenta que Belém foi escolhida devido à sua história, ao seu nome e à sua posição humilde.

História de Belém Efrata

Começando pela história de Belém, o pastor destaca três eventos que moldam a identidade da cidade:

  • A Morte de Raquel e o Nascimento de Benjamim: note que a primeira menção de Belém está associada à tristeza. Isso porque Raquel morre ao dar à luz a Benjamim. Ela chama-lhe Benoni (“filho da minha dor”), mas Jacó chama-lhe Benjamim (“filho da minha mão direita”) (Gn. 35:16-20). Nesse sentido, o Sr. Spurgeon vê aqui “quase uma profecia dupla” de Cristo: Ele é o verdadeiro Benoni, o “homem de dores” que sofre pelos pecados, mas é também o verdadeiro Benjamim, o Filho do poder de Deus, sentado à Sua direita.
  • A História de Rute e Noemi: Belém é o cenário da redenção de Rute. O pregador destaca como Rute, uma gentia moabita, encontrou graça nos campos de Boaz em Belém. Isto prefigura a vocação dos gentios e a natureza inclusiva da obra de Cristo. Ainda, Boaz e Rute receberam uma bênção que os fez frutíferos, de tal forma que Boaz converteu-se no pai de Obede, e Obede pai de Jessé, e Jessé gerou a Davi.
  • A Cidade de Davi: como local de nascimento do grande rei, Belém legitima a realeza de Cristo. O pastor observa que Belém, embora pequena em tamanho, é uma “cidade real” por excelência, produtora de reis. Jesus, o “Filho de Davi”, nasce na cidade do seu pai ancestral para reclamar o trono eterno.

Deus Conosco: a Cidade da Graça

Além da origem, temos a análise etimológica do irmão Spurgeon sobre o nome “Belém”:

  • Casa do Pão (Beth-lehem): Jesus é o verdadeiro pão que desceu do céu. O pregador contrasta Belém com o Sinai (onde não crescem frutos e há apenas trovões) e com o Tabor (o monte da transfiguração, que é glorioso, mas não substancial para a fome diária).
    • Tendo isso em vista, o crente deve ir a Belém para encontrar o “pão da Vida” (João 6:35).
  • Casa da Guerra: o pregador também nota um significado alternativo ou complementar para Belém: “Casa da guerra”. Cristo traz a espada contra o pecado. “Enquanto Ele é alimento para o justo, faz guerra ao ímpio” (Mateus 10:34-36).
    • O Príncipe dos Pregadores adverte solenemente: “Se não conheces Belém como ‘a casa do pão’, então ela será para ti uma ‘casa de guerra'”. Portanto, a vinda de Cristo força uma decisão; ninguém pode permanecer neutro!

Ainda, a adição de “Efrata” (fecundidade) completa a tríade simbólica: Cristo é a fonte de toda a fertilidade espiritual (Jo.15:5). “Nossos pobres corações infrutíferos nunca produziram nenhum fruto… até que foram regados com o sangue do Salvador”, declara o pregador.

A Pequenez de Belém Efrata

Ademais, a profecia de Miquéias destaca a “pequenez” de Belém entre os milhares de Judá. Nesse contexto, o pastor vê um princípio divino fundamental: “Cristo sempre vai em meio aos pequenos”. Em outras palavras, Cristo não nasce na altivez de Jerusalém, no centro do poder religioso e político, mas na humildade e ilustre aldeia de Belém. Assim, o pregador consola os membros da sua congregação que se sentem insignificantes, desconhecidos ou sem talento, cujo a lápide é o único meio pelo qual serão lembrados por outros. O pregador afirma: “Ele é o Cristo dos pequeninos” (C.H. Spurgeon).

Quem tem um coração quebrantado, e um espírito humilhado, terá ao Salvador, e ninguém mais. Ele não cura nem ao príncipe nem ao rei, mas sim, mas “ele sara aos quebrantados de coração e ata-lhes suas feridas” (Salmo 147:3). Que doce pensamento! Ele é o Cristo dos pequeninos. “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel.” (C.H.Spurgeon)

Deus Conosco: o Propósito de Cristo

Por fim, o pregador pergunta: “Para que veio Jesus?” e prontamente responde “para ser governador de Israel”!

Um ponto extremamente interessante é que poucos homens, se é que existiu algum, nascem como “Rei”. A maioria deles nasce como príncipes, mas não como reis. Entretanto, esse menino, a Promessa, nasceu como O Rei. Com isso quero dizer que, no instante em que Cristo veio a Terra já era o rei; ele não esperou alguém morrer ou destronou outro; o trono é e sempre foi um direito Seu, desde o Seu nascimento.

Além disso, outro ponto a ser lembrado é que Jesus não é Senhor de Israel segundo a carne, antes é Senhor de Israel segundo o Espírito. Cristo é Senhor da Sua descendência, do Seu povo, ao qual Ele veio salvar! Amém! O pregador verdadeiramente afirma:

“Ele verdadeiramente reina; e aqueles que não são governados por Cristo não são de Israel. Ele veio para ser Senhor de Israel.” (C.H.Spurgeon)

Em resumo, irmãos, o nascimento de Jesus Cristo, o “Cordeiro que tira o pecado do mundo” (João 1:29), não foi um ato pensado posterior à Queda, um “Plano B”, mas é O Caminho Perfeito coordenado antes da fundação do mundo (Apocalipse 13:8) para a salvação dos homens; uma prova do amor de Deus para com todos os Seus eleitos (Romanos 5:8-11); uma graça manifestada pela Santíssima Trindade para Sua própria honra e glória, de eternidade à eternidade!

Assim, se você é verdadeiramente salvo pelo amor da Aliança, seja grato em obediência e humildade ao Senhor da sua Salvação — não somente no Natal, mas a cada momento de todos os dias que Deus lhe conceder! Juntos, sejamos gratos ao Verbo que se fez carne, ao dia em que aprouve ao nosso Deus, unindo o céu e a terra, manifestar a Sua Promessa ao seu povo no nascimento do único Mediador entre Deus e os homens (1 Timóteo 2:5)! Amém!

[continua]

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